Uma noite no museu: Marilena Chauí na Unifesp Guarulhos

às: 14:08 , atualizado em 14 de dezembro às: 17:20
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ALEXANDRE POLESI
uma noite-divulgação
Marilena Chauí e Mário Vitor Santos na Unifesp Guarulhos: os ossos dos dinossauros se mexeram!

 

“Criamos nosso mito. O mito é uma crença, uma paixão.

Não é necessário que seja uma realidade”

 Francisco Campos (em 1940), ideólogo da ditadura varguista, citado por

Marilena Chauí, ideóloga da cleptocracia petista, em seu livro

“Brasil: Mito Fundador e Sociedade Autoritária” (2000).

 

Marilena Chauí, a mais vistosa intelectual do petismo, voltou ao auditório da Unifesp de Guarulhos, na noite fria de 24 de maio, para uma nova sessão de descarrego contra o “golpe” das elites e o colapso do governo Dilma.

Depois de um período de relativo silêncio, a filósofa do mensalão reassumiu seu posto na linha de frente da “disputa de narrativas” com a qual o PT tenta sobreviver à derrota política, econômica, ética e ideológica diante das instituições democráticas.

A mesa-redonda organizada pela Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (EFLCH) da Unifesp, no bairro proletário dos Pimentas, foi um longo monólogo para 300 pessoas sobre “os desafios da democracia”.

Em eventos desse tipo, não há debate, não há pluralismo. Há apenas o frenético esforço dos presentes de criar, com fragmentos esparsos da realidade, o mito capaz de explicar um universo em dissolução.

Nem na mesa – além de Marilena, a socióloga Walquíria Leão Rego e o jornalista Mário Vitor Santos -, nem entre os estudantes que lotaram o auditório, ninguém ousou desviar-se um instante sequer da narrativa vitimista com que o lulopetismo tenta encobrir um vexame histórico com a fantasia do heroísmo.

A LUTA CONTINUA

Desta vez, além dos temas que lhe são caros (a mídia manipuladora, a classe média fascista – que ela chama de “fachista” – e a elite arrogante), Marilena acrescentou algumas novidades.

A mais irresponsável de todas foi a sugestão de que a luta armada é uma alternativa disponível para a ação política, depois do desastre do impeachment.

Ao responder à pergunta de uma jovem e perspicaz militante do PSOL de boina colorida, sobre qual é a saída para a esquerda hoje, a professora da USP fez, primeiro, uma introdução nostálgica:

“Pertenço a uma geração que combateu a ideia de representação nos anos 60 e 70: a recusa da democracia representativa. A gente não fazia demandas ao Estado, a gente ignorava as leis”.

Em seguida, lembrou que nos Estados Unidos essa atitude contra o establishment produziu a contracultura e as comunidades hippies, “nas quais as pessoas teciam os fios com que faziam as próprias roupas”.

E no Brasil? Bem, no Brasil, “a geração 68 vai para a guerrilha no campo, depois para as cidades”. Simples assim. Fica aí a sugestão.

Para encerrar, uma pitada de anarquismo: “Eu sei o que é a crise de representação. É dizer: não aceito nenhum partido, nenhum governo, nenhum Estado. É por isso que a luta continua!”

Palmas. Estudantes em pé. Fim do “debate”.

E nem se diga que a evocação terrorista tenha sido apenas um raio em céu azul, desferido por uma professora aposentada de 74 anos.

Pouco antes, no bloco de perguntas, o tema já tinha sido levantado, também em tom nostálgico, por um veterano quadro petista de 63 anos.

O homem pardo, corpulento, de cabelos encaracolados completamente brancos, pegou o microfone para lembrar que seu pai tinha sido preso pela polícia na ditadura, que ele próprio fora militante das “comunidades de base” e que, por fim, ajudara a fundar o PT de Guarulhos.

E agora? Que fazer? Sua resposta foi melancólica: “Se eu não tivesse família, punha umas bombas no peito e explodia perto de um cara desses”.

Entenda-se por “um cara desses” qualquer um dos “traidores” do governo dito nacional-popular citados naquela noite: Michel Temer, Romero Jucá, Eduardo Cunha, Henrique Meirelles, Aécio Neves etc.

AUTOCRÍTICA? NIET!

Mas Dilma não cometeu erros? E Lula, não está enfiado até o pescoço no petrolão? E o PT, não se refestelou no crime?

E a Lava Jato? E os empreiteiros presos? E os 11 milhões de desempregados, a recessão brutal, a inflação de dois dígitos?

Nada, nem um pio. Durante três horas, 300 pessoas com idades entre 18 e 74 anos – portanto, três gerações – passaram inteiramente ao largo desses temas aborrecidos.

Com um detalhe: embora muito jovens, aqueles estudantes já tinham sentido na própria carne o modo de governar do regime que defendem.

Eles eram criancinhas quando, no segundo semestre de 2006, durante a campanha à reeleição, Lula apareceu nos Pimentas para inaugurar um pequeno grupo de galpões vazios, a que deu o nome de “Unifesp Guarulhos”.

Mas foi só neste ano – uma década depois – que a Reitoria conseguiu terminar as obras das salas de aula, da biblioteca e do setor administrativo, capazes de dar àquele local ermo as condições mínimas para ser chamado de universidade.

Por dois anos, até o final de 2015, mais de três mil alunos da EFLCH tiveram de se instalar num prédio alugado e improvisado no centro de Guarulhos, ao custo de R$ 250 mil por mês.

Como as obras atrasaram, por causa do corte de verbas para as universidades federais, ordenado por Dilma, as aulas no campus reformado só começaram mesmo no último dia 27 de abril, no meio do semestre letivo.

Ninguém se lembrou de nada disso. E antes que alguém tivesse a má ideia de insinuar tais questões, já respondidas por milhões de brasileiros nas ruas e por 68% da população favoráveis ao impeachment, segundo o Datafolha de 19 de março, a própria Marilena travou preventivamente qualquer risco de desvio da narrativa.

Disse: “Fico uma fera quando dizem que o PT precisa fazer autocrítica. Essa expressão foi inventada pelos tribunais do estado”.

Referia-se ao estado soviético, embora sem mencionar o nome da extinta pátria do socialismo. Lembrou apenas que “autocrítica” foi a palavra-chave na farsa dos julgamentos de Trótski, Bukhárin e outros bolcheviques dos anos 30.

Assim, para a ex-discípula e psicógrafa do filósofo libertário francês Claude Lefort, a mera ideia de um partido discutir seus erros numa democracia remete ao terrorismo totalitário dos Processos de Moscou.

Sua conclusão, porém, foi digna de um apparatchik da corte de Stálin: “Não podemos cobrar aquilo (a autocrítica) que inviabilizaria (o partido)”. Assunto encerrado.

O GOLPE NA CONSTITUIÇÃO

Outra novidade da noite foi a curiosa descoberta, anunciada por Marilena, de que uma das fontes do “golpe” é… a própria Constituição!

Se o objetivo do evento era produzir narrativas para manter o mito em pé, algo precisava ser feito contra o respeitável argumento de que o impeachment é perfeitamente constitucional.

Nossa ideóloga, então, saiu-se com um raciocínio segundo o qual o processo constituinte de 1987/1988 incubou na Carta um “substrato autoritário” para “contemplar a classe dominante”.

Esse Alien estaria lá, escondido sob os artigos e incisos do “livrinho”, sempre à espreita para dar o bote nos governos populares.

O monstro seria representado – diz ela – pela Lei de Segurança Nacional da ditadura, cujo teor foi parcialmente recepcionado pelo texto constitucional, e pelo atual sistema político, “feito pelo Golbery” – o general Golbery do Couto e Silva, intelectual do regime militar.

O fato de que nenhum dos artigos constitucionais sobre a defesa do Estado democrático tenha sido invocado em nenhuma das crises políticas depois de 1988, inclusive nos impeachments de Fernando Collor e da própria Dilma, não perturba a narrativa do golpe.

E a circunstância de que foi sob o sistema político “feito pelo Golbery” que o PT venceu quatro eleições presidenciais seguidas, tornando-se a corrente política que por mais tempo exerceu o poder na República, depois do getulismo, também não abala a construção do mito.

Nada disso importa. “O golpe está sustentado pela Constituição de 88”, declarou Marilena. E ponto final.

Mas o evento provou que a luta contra a realidade pode ser profundamente desigual para os mitólogos dos Pimentas.

A professora Walquíria Leão Rego que o diga. Ela contou uma história que poderia ser hilária, embora ninguém tenha achado a menor graça.

Coautora de “Vozes do Bolsa Família” (Unesp, 2013), um estudo apologético sobre o principal programa social do lulismo, Walquíria estava no sertão do Cariri, interior do Ceará, na fatídica manhã de 12 de maio, o dia do impeachment.

Revisitava uma região onde moram várias das beneficiárias do programa entrevistadas entre 2006 e 2011, durante a pesquisa que originou seu livro.

“No dia do impeachment, soltaram foguetes!”, espantou-se Walquíria. “Foi um momento terrível. Fiquei atônita!”

A professora de teoria da cidadania da Unicamp achou incompreensível que mulheres pobres, inscritas no Bolsa Família, pudessem reagir à inflação, ao desemprego e à roubalheira comemorando a queda de Dilma, a benemérita presuntiva de todas elas.

Walquíria voltou do sertão firmemente determinada a “organizar uma disputa de narrativas”. Como? Não tem ideia. “Talvez as Caravanas da Cidadania, sei lá.”

Para o futuro imediato, ela traçou um cenário apocalíptico, na linha “après moi, le déluge”, antevendo o fim de todos os programas sociais pelo governo Temer.

O fato de que tal desmanche já tenha sido exaustivamente desmentido não a deteve. “Eles vão liquidar o Bolsa Família, eles vão focar nos 10% mais pobres, eles vão tirar 36 milhões do programa, eles vão jogá-los na miséria de novo!”

A TEORIA DO CAMPO UNIFICADO

Sim, mas como chegamos a esse ponto? Walquíria socorre-se então de um discurso da “decadência dos sujeitos coletivos”, segundo o qual os partidos políticos foram substituídos por “poderes muito fortes, não eleitos”, que criaram “um campo unificado quase impenetrável”.

Em sua teoria do campo unificado pontificam os meios de comunicação, “não submetidos a nenhum controle”, e o Supremo Tribunal Federal e o Ministério Público, “que não respondem a ninguém”, além, é claro, do capital financeiro.

Juntos, eles constituem “um poder despótico”, que dá curso ao “golpe” e provocará no Brasil “uma ruptura institucional como na Grécia”.

Concluiu também de forma melancólica: “Eu e minha geração não tivemos poder para reverter isso”. Palmas moderadas.

Parênteses. Na Grécia, como se sabe, há uma grave crise econômica, mas não houve nenhuma ruptura institucional.

Esta foi evitada quando, no dia 20 de agosto de 2015, o primeiro-ministro esquerdista Alexis Tsipras renunciou ao cargo e convocou novas eleições (lá, vigora um parlamentarismo moderno e democrático).

Tsipras teve a sabedoria de engolir suas palavras, brigar com seu partido, demitir o ministro da Economia Yanis Varoufakis e convencer o povo grego de que, diferentemente do que dizia, não havia alternativa a um duro ajuste fiscal.

Reeleito, fez o acordo com a Alemanha e tirou a Grécia da rota da catástrofe – a expulsão da União Europeia.

Poderia ser um bom exemplo de prudência e humildade para Dilma e o PT, mas nada disso foi lembrado na Unifesp. Nem pelos intelectuais da mesa, menos ainda pelos estudantes de ciências sociais da plateia.

Naquela noite, por três horas, o anfiteatro foi um museu de ideias mortas, blindado à realidade externa.

Lá dentro, a veterana feiticeira ainda tentava convocar os espíritos dos heróis do passado e dar vida às ossadas dos dinossauros, sem o sucesso de antes.

Passaram-se 40 anos desde os tempos em que Marilena Chauí hipnotizava os estudantes que enchiam o amplo auditório da Faculdade de Filosofia da USP, em aulas concorridíssimas.

No fim dos anos 70, ela já encasquetava com a classe média de então (seus alunos), “com seus Chevettes”.

Hoje, ainda resmunga contra as “BMW e as Mercedes” dos ricos. Mas passa como gata sobre brasas diante dos símbolos motorizados de prosperidade da nova burguesia de Estado do lulopetismo.

Por exemplo, nenhuma palavra sobre a Land Rover do ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira (presentinho da GDK, fornecedora da Petrobras).

Ou sobre a Santa Fe na qual o tesoureiro João Vaccari Neto ia buscar os pixulecos de Ricardo Pessoa, da UTC.

Definitivamente, a competência de seu “discurso” – perdão, narrativa – já não é a mesma.

Na década de 80, Marilena Chauí surfava numa ideologia em ascensão; hoje, é a voz de um mundo em decadência.

Sobrou para o jornalista Mário Vitor Santos, ex-secretário de redação e ombudsman da “Folha de S. Paulo”, cunhar o epitáfio apropriado para aquela noite no museu.

Depois de prédicas contra o “pesadelo” do “novo populismo de direita” do jornalismo antipetista, devotado a “subverter a democracia” por meio de um “ensaio pré-ditatorial” em pleno curso, Mário Vitor terminou sua palestra com um lamento doloroso: “Testemunhamos o fim de uma época”.

Enfim, uma verdade. Às 22h, taciturnos e sem grandes esperanças, todos foram embora em paz e voltaram ao Brasil do século 21.

 

 

 

 

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