Na nota do PT sobre a eleição, algumas verdades boiam num mar de rancores

às: 22:50 , atualizado em 07 de outubro às: 12:58
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A nota da direção nacional do PT divulgada nesta quarta (5), sobre o desastre eleitoral de domingo, contém nas entrelinhas algumas verdades curiosas, talvez até involuntárias, boiando num mar de lágrimas e rancores.

1-O texto começa dizendo que a “derrota profunda” do partido resultou da “ofensiva desferida contra o PT pela mídia monopolizada e os aparatos da classe dominante, desde a Ação Penal 470 até as vésperas da eleição municipal”.

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Rui Falcão, presidente nacional do PT

Tradução: o partido estabelece uma associação que nem a Operação Lava Jato conseguiu ainda provar cabalmente: que mensalão (Ação Penal 470), petrolão e outros esquemas corruptos não são fenômenos isolados, mas aspectos de um único e gigantesco processo de rapinagem dos recursos públicos.

2-Segue afirmando que o desastre eleitoral deveu-se também à perda de confiança “da classe trabalhadora, dos pobres e dos setores médios, inconformados com o ajuste fiscal implementado pelo nosso governo”.

Logo, reconhece, primeiro, que o ajuste fiscal começou no próprio governo petista; segundo, que a culpa é mesmo de Dilma Rousseff; terceiro, que o peso da crise recai principalmente no lombo dos mais pobres.

A propósito, o nome da ex-presidente não é citado em nenhum momento, nem quando há menção ao impeachment.

3-Diz ainda a nota que “as medidas então adotadas (a inepta e fracassada tentativa de ajuste fiscal da dupla Dilma/Joaquim Levi) serviram de pretexto para que a classe dominante e os partidos conservadores impusessem a narrativa do estelionato eleitoral”.

Bem, há aqui dois reconhecimentos: primeiro que, sim, foi um estelionato eleitoral; segundo, que a contranarrativa do “golpe” fracassou – como se viu no domingo, afora a militância e os artistas e intelectuais de sempre, a imensa maioria do eleitorado não caiu nessa conversa.

4-Aliás, a questão da “narrativa” é claramente o que mais doeu para o PT. É o cerne da “resolução política”. Diz o texto: “Não tivemos sucesso, durante o primeiro turno, em construir uma contranarrativa capaz de desmascarar o programa defendido pelas forças golpistas e associá-lo a seus projetos privatistas para as cidades”.

Portanto, protejam suas redes sociais: vem aí um tsunami de “narrativas” – uma mais descabelada do que a outra. O partido fará de tudo, até encaixar uma que cole.

5-O PT também ficou chateado com a reforma política “comandada pelo ex-deputado Eduardo Cunha”. Segundo a nota, a reforma (refere-se à Lei 13.165, de setembro de 2015) reduziu o tempo de campanha no rádio e TV, “o que acabou por limitar nossas possibilidades de enfrentamento contra os partidos de direita”. Reclamou ainda que as novas regras não vedaram a autodoação e não fixaram limites para a contribuição individual.

É o PT provando do próprio veneno. O fim do financiamento empresarial nunca foi obra de Eduardo Cunha, e sim um equívoco produzido por uma campanha liderada pelo próprio PT, quando ainda se julgava por cima.

A tese foi encampada pelo ministro Luís Roberto Barroso, que conseguiu fazê-la prevalecer no Supremo Tribunal Federal.

Além disso, é mentira que a lei não fixou limites para a doação individual. A Resolução 23.463/2015 do TSE manteve o teto de 10% do rendimento bruto do ano anterior por pessoa física, em vigor desde 1997.

Já a redução do tempo de campanha, previsto na Lei 13.165, atingiu igualmente todos os candidatos- ela não foi pensada para atingir só o PT, é óbvio.

O que houve foi que muitos possíveis doadores e antigos aliados, que poderiam se coligar com o partido, aumentando assim o tempo de TV, simplesmente pularam fora do PTnic, diante da evidência do naufrágio.

6-Por fim, a nota do PT convoca a militância a “apoiar incondicionalmente as candidaturas do PSOL, do PCdoB, da Rede e do PDT nas capitais, bem como daqueles com quem já estivemos no primeiro turno”.

É a verdade mais cristalina e incondicional do texto. É o PT admitindo com todas as letras que os demais partidos de esquerda lhe servem apenas como linhas auxiliares, quando lhe convêm. Meros satélites orbitando em torno da nave-mãe – inclusive e especialmente a Rede de Marina Silva.

Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre isso, devemos ser gratos à direção nacional do PT por dissipá-la.

Aqui, a íntegra da nota

 

 

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