Na despedida, Dilma dá ares de heroísmo a vexame histórico

às: 13:24 , atualizado em 30 de julho às: 2:02
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ALEXANDRE POLESI

A encenação de resistência heroica ao que, objetivamente, foi um vexame monumental exibiu com crueza a congênita dificuldade de Dilma Rousseff com os protocolos da democracia.

Sua despedida do poder, no final da manhã desta quinta (12), em Brasília, foi um dos atos mais patéticos da história política recente.

No gênero, poderia ser comparada ao golpe da renúncia de Jânio Quadros em agosto de 1961.

Dilma, de novo, fez pouco caso das leis do país, da Constituição, do Congresso, do Supremo Tribunal Federal e dos milhões de brasileiros que exigiram seu afastamento nas ruas, em meio à maior crise econômica da República.

O contraste com a relativa dignidade com que Fernando Collor deixou a presidência, há 24 anos, é flagrante.

Naquele 29 de setembro de 1992, data da aceitação do impeachment pela Câmara dos Deputados, o então ainda presidente sabia que tinha chegado ao fim.

Collor recebeu a notificação, olhou o relógio, engoliu em seco, reprimiu o orgulho e foi embora do Palácio. Aceitou seu destino em silêncio.

Dilma, não. Ela esperneou, se debateu e se apresentou como vítima de uma “farsa política” até o último segundo possível de exposição.

Reclamou da “dor da injustiça” e destilou seu fel contra a “traição” dos aliados. Fez ameaças e previu um futuro sombrio para o Brasil.

No pronunciamiento no Palácio do Planalto e, depois, no discurso à claque petista na Praça dos Três Poderes, foi mais Dilma do que nunca: arrogante, autocentrada e incapaz de qualquer sinal de autocrítica.

Repetiu à exaustão o surrado tema do “golpe” e da “ilegitimidade” do impeachment, mas foi além, atravessando o terreno perigoso da irresponsabilidade.

Ao declarar que a “a luta pela democracia não acaba nunca”, deu a entender que se pretende um papel de destaque numa incerta resistência ao governo Temer.

Fez um apelo explícito à “mobilização” do mundo petista em sua defesa e no combate ao novo governo, sem perceber que invocava fidelidade a uma liderança que nunca teve.

Seu isolamento será rápido, e isso ficou claro já no discurso no Palácio, onde o único petista importante em cena (em segundo plano) era o ministro Ricardo Berzoini.

A seu lado direito, estava apenas Giles Azevedo, um assessor de segundo escalão. Do lado esquerdo, dos ministros mais conhecidos, apenas a amiga Kátia Abreu (Agricultura).

Nem Lula, nem Aloizio Mercadante, nem Rui Falcão. Os petistas graúdos só a acompanharam quando ela deixou o Palácio e discursou para uma plateia modesta, no meio da praça.

Enquanto ela falava, era impossível não notar os sinais de enfado e impaciência de Lula, logo atrás, em completo silêncio.

O ex-presidente tentou até evitar o contato com a mãe de Dilma, num instante em que esta se aproximou em busca de algum conforto. Lula não quer se contaminar.

A ficha de Dilma ainda não caiu, mas sua previsão de algumas semanas atrás estava correta. Ela já é carta fora do baralho.

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