MUNDO EM CHOQUE: TRUMP GANHA NOS EUA E FREIA A GLOBALIZAÇÃO

às: 3:53 , atualizado em 09 de novembro às: 5:38
456
0
trump
Donald Trump: marcha sobre Washington

Às 2h da madrugada desta fatídica quarta-feira, dia 9 de novembro de 2016, a fatura já estava liquidada, e os que estavam acordados não conseguiram mais dormir.

Donald Trump ganhou a eleição nos Estados Unidos e provocou uma onda de choque em todo o mundo. Em alguns casos, o que há é pânico mesmo.

Nos mercados asiáticos, as bolsas desabaram tão logo os primeiros resultados nos estados-chave da Flórida e Carolina do Norte confirmaram o rumo inesperado da eleição presidencial americana.

O triunfo do candidato mais grosseiro, vulgar, mentiroso e reacionário da história moderna dos Estados Unidos é o evento político mais dramático deste século, superando a eleição de 23 de junho no Reino Unido, na qual a maioria dos britânicos, para estupor geral, votou no Brexit e resolveu abandonar a União Europeia.

São, na verdade, fenômenos simétricos. Eles impõem ao mundo uma freada brusca na globalização, nos valores cosmopolitas, liberais e democráticos e na ideia de uma gestão multilateral dos dilemas planetários.

Trump prega a volta do isolacionismo americano, do fechamento das fronteiras, dos muros reais e metafóricos, da xenofobia, das barreiras comerciais e do protecionismo.

Agora, de novo, é cada um por si e Deus por todos. A roda da História volta para trás.

Sua vitória põe de pernas para o ar todo um vasto arsenal de supostos conhecimentos científicos sobre política e comportamento eleitoral.

Mais uma vez, as pesquisas eleitorais fracassaram espetacularmente – como se viu no Brexit.

Até começarem a sair os primeiros resultados, todos os analistas políticos americanos e a média de dezenas de pesquisas feitas diariamente em todo o país ainda apontavam uma apertada, porém inequívoca vitória de Hillary Clinton, com uma margem entre três e quatro pontos.

Mas logo ficou claro que o vencedor seria o candidato do insulto, do sexismo, da arrogância e do preconceito contra imigrantes, mulheres e minorias raciais.

Ou seja, aquele que falou e pregou o exato oposto de tudo aquilo que os marqueteiros e os manuais de campanhas políticas consideravam adequado para vencer uma eleição.

Aquele que peitou acintosamente todos os figurões do próprio Partido Republicano e foi na contramão de todo o pensamento convencional sobre política, moral e decência.

Aquele que deu voz às legiões silenciosas de americanos rancorosos e frustrados com as consequências econômicas, culturais, sociais e comportamentais da globalização.

Trump foi o candidato por excelência contra o establishment e as “elites”, tanto dos Estados Unidos quanto de todo o Ocidente democrático.

Apresentou-se como o profeta da restauração dos anos dourados da América, ou seja, do mundo pré-crise de 2008, e captou com maestria a ansiedade latente de milhões de americanos.

Seu eleitorado é formado majoritariamente por homens brancos, de meia idade, sem nível universitário, cujos empregos e renda foram destroçados nos últimos anos pela transferência das velhas indústrias do “rust belt” (cinturão de ferrugem) do Nordeste e do Meio-Oeste dos Estados Unidos para a China ou o México.

É o mesmo perfil dos eleitores que deram a vitória ao Brexit no Reino Unido: os que, antes, formavam o velho proletariado industrial que votava no Partido Trabalhista ou no Democrata e, hoje, se veem como os deserdados da globalização.

As consequências desta eleição serão gigantescas. O século 21, crismado e marcado com ferro em brasa pelo atentado da Al Qaeda em Nova York, no dia 11 de setembro de 2001, adquire agora um perfil político que fará o fantasma de Osama bin Laden sorrir de satisfação. Sim, o terrorista venceu.

A implicação imediata é a divisão profunda, perigosa e irreconciliável dos Estados Unidos, ao menos no horizonte da atual geração.

A ascensão de Trump assinala também o colapso do sistema político americano, que não foi capaz de impedir que um demagogo irresponsável e caprichoso assumisse o comando da maior potência militar do planeta.

Um sistema político que mostrou, nesta terça, toda a sua disfuncionalidade e, pura e simplesmente, deixou de ser exemplo de democracia para o mundo.

O mundo de Trump -e do Brexit, do outro lado do Atlântico – será o mundo dos particularismos, dos nacionalismos agressivos, da violência retórica, que facilmente poderá se converter em brutalidade militar, das retaliações econômicas, da falsificação consciente em lugar dos fatos, da fraude em vez da verdade, da ousadia sem limites contra qualquer código civilizado de conduta, tanto nas relações pessoais quanto na política internacional.

Se alguém se lembrou de Mussolini e Hitler, acertou na mosca.

Nesta madrugada de 8 para 9 de Novembro de 2016, Trump fez sua marcha triunfal sobre Washington.

E, como na Marcha sobre Roma de 22 de outubro de 1922, ou na eleição presidencial da Alemanha de 19 de agosto de 1934, lança uma sombra de inquietação sobre os democratas de todo o mundo.

 

 

SEM COMENTÁRIOS