Há uma tristeza no ar

    às: 7:47 , atualizado em 28 de setembro às: 7:47
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    A verdade é que andamos todos um tanto tristonhos. Tristeza mesmo, e não é para menos.

    Posso perceber isso no esforço para nos animarmos com pequenas graças. Com memes divertidos no FB, com vídeos de bichos maluquinhos ou fofos, com notícias de solidariedade e compromisso com o outro, quem quer que ele seja, independente de onde esteja…

    Quando procuramos, num esforço incansável, distrações que nos aliviem é porque estamos mal.

    Mesmo vendo praias ensolaradas, paisagens lindas, comidas de dar água na boca, amigos rindo no churrasco, mesmo sendo bombardeados pelo “belo” e pelo “bom”, ainda assim, isso é só um átimo da vida do outro.

    Se, antes de chegar à praia, o outro estava angustiado, deprimido mesmo, não sabemos.

    Se cinco minutos depois de comer aquele prato divino, um desespero sem igual ocupou sua alma, também não sabemos.

    O mundo vem recortado em instantes, e por isso sempre desconfiamos de que somos só nós – só eu – que estamos aflitos com a situação do País, preocupados com as contas que aumentam diante do mesmo salário, ou desgostosos porque a cada dia descobrimos mais uma roubalheira, mais alguns bilhões surrupiados.

    E temos ainda as pequenas e grandes tragédias do dia a dia: o pai que mata o enteado, a criança que cai do 26º andar, o destempero do motorista com o ciclista, a violência nas praias do Rio.

    E como se não bastassem os “nossos” problemas, ou seja, aqueles do nosso País, ainda há o terrível drama dos migrantes morrendo aos milhares na tentativa desesperada de atravessar o Mediterrâneo, ou, quando conseguem chegar à Europa, vivendo em campos de refugiados de fazer chorar o mais duro coração.

    Tenho pensado muito sobre este descompasso entre o que se vê nas redes sociais, o que cada um compartilha de sua vida, e o que de fato estamos sentindo e vivendo.

    A distância entre um e outro nos angustia ainda mais. Além de nossa verdadeira vida nem se comparar em delícias à dos outros, temos a sensação de que estamos ficando loucos por não pertencermos ao mundo dos filhos lindos, das paisagens divinas, das comidas maravilhosas.

    Não há espaço para a tristeza no FB, nem para a angústia. Há só um pouquinho para a indignação e zero para o cotidiano nu e cru.

    Este não é o mundo, é isso que precisamos nos repetir a cada instante para dar espaço à tristeza de ver este País se desmanchar, para nos indignar ao ouvir a presidente, o senador, o deputado, o ministro, o prefeito falando besteiras e comprometendo nosso futuro em seu modo de pensar curto e imediato, ou esvaziando os cofres do Estado e nos fazendo de trouxas.

    O FB é uma ilha de graças e belezuras num mar de problemas, gerais e pessoais – porque o preço da carne, do café, da luz influencia, sim, o estado de ânimo de qualquer um. O mar que me cerca, que te cerca, traz suas ondas de bem e de mal para as nossas praias.

    Há uma tristeza no ar. Há muitos motivos para isso.

    Sem fazer dela um imobilizador, temos de aceitá-la, compreendê-la, e ainda assim nos divertir com o gatinho esperto, com a criança engraçada, com o meme divertido.

    C’est la vie…

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