Eduardo Suplicy e o mito bom do petista

às: 6:43 , atualizado em 03 de outubro às: 18:37
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Quantos petistas cordiais (no sentido imortalizado por Sérgio Buarque de Holanda, e não aquele de Cassiano Ricardo) existem na cidade de São Paulo?

Se pudéssemos contá-los, qual seria a soma de todos eles?

Um bom palpite é: exatamente 301.446.

É a votação de Eduardo Suplicy, o novo campeão de votos da Câmara Municipal de São Paulo.

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Eduardo Suplicy: derrotado para o Senado em 2014, a volta por cima como vereador mais votado de SP

Pensemos nas tribos que invadem a nossa timelime do Facebook, mais as que frequentam a feirinha dos sábados da Praça Benedito Calixto; as que circulam pela Praça do Pôr do Sol nas noites de lua cheia; as que perambulam com olhar turvo pelos pátios da PUC-SP e da FFLCH da USP; as que invadem, a partir de quinta à noite, os bares da Vila Madalena e as pizzarias da Rua Treze de Maio e as cervejarias de Moema; sem esquecer do pessoal dos birôs de TI, publicidade, design e arquitetura do eixo Vila Olímpia-Avenida Nove de Julho; das hordas de cicloativistas da Paulista; das legiões de professores da rede pública espalhados por toda a cidade; dos milhares de “educadores” dos colégios particulares de alto nível das zonas Oeste e Sul; dos remanescentes da militância católica de esquerda nas paróquias das periferias; e de muitos outros redutos do esquerdismo descolado paulistano.

Num momento em que a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos petistas vivos, em quem toda aquela gente teria pensado em votar, senão em Eduardo Suplicy?

Em tempos de Lava Jato e impeachment, em que pais e tios ridicularizam filhos e sobrinhas (quando o normal deveria ser o contrário), em que até os porteiros e as manicures chamam os atos dos petistas pelo seu verdadeiro nome, o que mais resta, senão uma edênica regressão a um passado utópico?

Marginalizado pelo comando partidário, ignorado pela tropa de choque da CUT, dos sindicatos e dos “movimentos sociais”, o sucesso eleitoral de Suplicy não pode ser compreendido apenas no plano político.

É no plano psicológico que pode estar a melhor explicação para o fenômeno registrado neste domingo.

É como se um mesmo pensamento angustiante tivesse perpassado, sincronicamente, o que restou da consciência, ou da subconsciência, de todos aqueles petistas cordiais: “Zé Dirceu está morto, Dilma está morta, até Lula está morto – e eu mesmo não estou me sentindo muito bem”.

O passo seguinte consistiu em acordar, por alguns segundos, a brasa adormecida sob as cinzas acumuladas no fundo do coração.

Suplicy: o Forrest Gump que conseguiu passar ao largo do tsunami de escândalos que devastou seus pares, exatamente porque sua inoperância no mundo prático sempre o deixou distante de qualquer tarefa política ou administrativa mais complexa, no PT ou nos governos petistas.

Suplicy: o último petista sincero, ingênuo e preocupado em “mudar o mundo”, que, aos 75 anos, ainda conserva um coração de estudante e se deixa arrastar por policiais em manifestações, ou é capaz de, “inadvertidamente”, dar beijos na boca das jovens petistas em flor das passeatas.

Suplicy: o marido ideal das feministas, traído e humilhado por uma víbora que, agora, teve a ousadia de cuspir até no partido em que se fartou por 30 anos.

Aliás, quantas mulheres petistas não terão votado em Eduardo pensando intimamente em, assim, melhor vingar-se da dupla traição de Marta?

O fato é que aqueles milhares de petistas distraídos precisavam urgentemente repousar sua consciência atormentada num doce e cálido sonho regressivo.

Num mundo sem petrolão, Sérgio Moro, propinas, delações premiadas, inflação, desemprego e recessão. E sem Michel Temer.

O fato é que Eduardo, muito finório, sabe manipular como ninguém o mito do bom petista – aquele ser rousseauniano, naturalmente puro e bem-intencionado, ainda não conspurcado pelo poder e pelo dinheiro.

Ofereceu-se à mistificação e foi atendido. 301.446 votos. Nada mau, não?

 

 

 

 

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