É o fim do PT, tal como o conhecemos

às: 20:37 , atualizado em 31 de agosto às: 22:23
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Brasília - A advogada de acusação, Janaína Paschoal, após votação do impeachment. Por 61 a 20, o plenário do Senado decide pelo impeachment de Dilma Rousseff. (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
A advogada de acusação Janaína Paschoal, professora da USP, comemora o impeachment no Senado

O fim do governo Dilma Rousseff nesta quarta-feira, 31 de agosto de 2016, é, principalmente, o fim do projeto de poder do PT.

Para ser mais claro, é o fim do PT, tal como o conhecemos desde sua fundação em 1980.

Apesar do sabor amargo da bizarra votação do Senado sobre os direitos políticos da ex-presidente, o impeachment não é apenas uma formidável derrota política do partido de Lula.

Isso é o que as viúvas do poder, em sua narrativa vitimista, já começaram a propagar minutos depois do fim da sessão: foi só um tropeço, mas a luta continua. “Nós (eles) voltaremos”.

É uma ilusão. Essa “luta” já acabou. “Eles” não voltarão. Não, ao menos, do jeito que conhecemos e padecemos nesses 14 anos.

DERROTA IDEOLÓGICA

O impeachment consuma a derrota moral, econômica e, acima de tudo, ideológica do projeto petista.

Ideológica, porque o plano hegemonista e autoritário de perpetuação no poder à base do banditismo e da corrupção perdeu inapelavelmente para os valores da democracia e a força das instituições democráticas.

Estamos falando de democracia de verdade, com todos os seus defeitos. A saber: imprensa livre, Judiciário independente, direitos e garantias individuais, liberdade política, parlamento autônomo, leis iguais para todos, liberdade econômica.

Isso não significa necessariamente que o partido de Lula desaparecerá – bem entendido, se não for dissolvido pela Justiça por ter se convertido em organização criminosa.

Se escapar da lei, seu provável destino será semelhante aos dos antigos partidos comunistas do Leste europeu.

Estes saquearam e tiranizaram seus povos durante décadas, até serem varridos pela onda democrática do final do século passado, mas ainda sobrevivem como grupelhos de crentes nostálgicos.

Fazem algum barulho, mas tornaram-se irrelevantes na balança do poder.

Outro destino possível, talvez mais próximo do petismo real, o aproxima do malufismo: um movimento ainda capaz de dar um mandato de deputado a seu líder, a despeito de tantas evidências de corrupção, mas sem forças para ambicionar qualquer perspectiva nacional de poder.

Assim, se as leis falharem, restará como perspectiva viável arrancar a máscara “classista” e assumir-se definitivamente como partido populista, sob o comando de um demagogo carismático à moda Perón, Chávez ou Maluf – Lula.

Nessa hipótese, não será surpresa se o partido mudar de nome para que tudo fique na mesma, com o agora velho cacique dando as cartas como sempre deu.

A partir de amanhã, Dilma voltará a seu verdadeiro lugar nesse drama histórico, o de uma personagem secundária que as circunstâncias, que ela não escolheu (Lula decidiu tudo), levaram a ocupar o cargo máximo do país e a produzir o desastre cuja completa extensão ainda não é possível dimensionar.

O PT não terá alternativa senão jogar todas as suas fichas na salvação de Lula das malhas da Justiça e na viabilidade do ex-presidente como candidato em 2018.

Não terá tempo para Dilma, que será apenas um detalhe. Os que restarem do petismo serão os primeiros a ignorá-la, por uma questão de sobrevivência.

IRONIA DA HISTÓRIA

Não deixa de ser mais uma ironia da História. Quando Dilma foi eleita pela primeira vez, em 2010, José Dirceu declarou que finalmente o PT tinha chegado ao poder. Era verdade.

A frase, em tom de desabafo, revelava o desconforto do núcleo duro do partido com a evidência de que Lula deveu todo o sucesso econômico de seu governo ao fato de ter mantido intocada (até 2009) a política econômica de Fernando Henrique Cardoso, apesar da conversa mole da “herança maldita”.

Para os petistas da máquina partidária e os ideólogos, a eleição de Dilma significaria que a vez deles tinha chegado.

Exatamente porque não tinha a força carismática de Lula, ela faria – como de fato fez – um legítimo governo petista, “de raiz”.

Ou seja, sem entregar os postos-chave da economia a neoliberais como Henrique Meirelles, Marcos Lisboa ou Joaquim Levi.

O passo seguinte foi desmontar a sofisticada estrutura macroeconômica da era FHC, que garantiu inflação baixa e crescimento do PIB por quase uma década, entre 2003 e 2010.

Afinal, era a política do PT que seria posta em prática, e Dilma estava lá para isso, na companhia de Guido Mantega e Arno Agustin, a dupla das pedaladas.

O resultado foi muito além do previsto: recessão sem precedentes, inflação de dois dígitos, desinvestimento recorde, 12 milhões de desempregados, quebradeira generalizada das empresas, perda da credibilidade interna e externa do governo, recuo dos indicadores sociais etc.

Quem tivesse lido um pouco da história do regime militar saberia que aplicar a “nova matriz econômica” – uma restauração do velho modelo desenvolvimentista dos generais – só seria possível às custas do mais escancarado clientelismo e de altíssimas doses de corrupção.

Exigiria aprofundar o projeto de aparelhamento criminoso da máquina pública e reforçar aquilo que FHC (referindo-se à política econômica da ditadura) chamou de “anéis burocráticos” – a aliança espúria entre os chefes políticos do poder, os altos funcionários do Estado e dos fundos de pensão e os grandes empresários.

Ou seja, só seria possível se tudo aquilo que a Operação Lava Jato descobriu fosse jogado para debaixo do tapete e as instituições se calassem.

Em suma: o projeto petista, como o dos militares, só vingaria sob uma nova ditadura, ou quase isso.

Mas ele foi derrotado pelos brasileiros nas ruas e, agora, no Congresso Nacional.

Esse projeto não voltará – não enquanto houver democracia no Brasil, e o PT sabe disso.

Daí porque já iniciou a regressão ultraesquerdista, percebida no discurso pós-impeachment de Dilma no qual mandou às favas os escrúpulos de consciência e declarou desconhecer a legitimidade das leis que a puniram.

De fato, o PT apostou que a democracia seria uma forma vazia, a ser preenchida paulatinamente pela estratégia hegemonista do partido.

Imaginou que os embates no Congresso não seriam divergências substantivas, apenas meras manifestações de “cretinismo parlamentar” (a frase de Lênin foi repetida nesta quarta pelo senador petista Humberto Costa).

Mais grave ainda, ignorou o país real e convenceu-se de que a presunção de impunidade das velhas elites reacionárias valeria também para os novos donos do poder – daí a desenvoltura do assalto sistemático ao Estado via mensalão e petrolão.

OBRA DE LIBERAIS

Errou feio. É compreensível. A democracia em vigor não foi construída com o concurso do PT – e sim apesar dele.

Ela é uma obra de liberais, e não de esquerdistas e autoritários recém-convertidos ou disfarçados.

Foi criada por uma rara combinação de democratas convictos, como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Paulo Brossard, José Richa, Teotônio Vilela e Afonso Arinos.

E temperada por gente de esquerda sinceramente convertida aos valores democráticos, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Marcos Freire, Alberto Goldman e outros.

Uma geração que representou um ponto fora da curva na história brasileira, na qual a política sempre oscilou entre diferentes tons de autoritarismo de direita e de esquerda.

Nos momentos mais decisivos da redemocratização, o PT optou por distanciar-se do mainstream democrático.

Foi contra o Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo e pôs fim ao regime militar.

Recusou-se a votar a Constituição de 1988, o documento-síntese do Brasil pós-ditadura.

Tentou sabotar o governo de transição de Itamar Franco, depois de ter lutado implacavelmente pelo impeachment de Fernando Collor – eleito pelo voto popular, como Dilma.

Combateu o Plano Real, o programa econômico mais importante da história do Brasil.

Por isso, nunca acreditou no vigor das instituições criadas a despeito de seus esforços de encabrestá-las e enfraquecê-las.

Acima de tudo, subestimou a força dos valores ideológicos da democracia, que nunca foram os dele.

Tentou combatê-los, cooptá-los, controlá-los e, por fim, virá-los do avesso.

Perdeu.

 

 

 

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