Da farsa ao acinte: o 18 Brumário de Luiz Inácio

às: 20:13 , atualizado em 01 de agosto às: 22:34
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ALEXANDRE POLESI
luis napoleão
Luís Bonaparte tomou o poder na França em 1851

Nunca houve um golpe de Estado como esse no Brasil.

Se Raymundo Faoro estivesse vivo, teria material para escrever um terceiro volume inteirinho de sua obra-prima, só para o lulismo e os novos donos do poder.

Para começar, a “tomada” do Palácio do Planalto por Lula foi uma operação inteiramente civil, coisa inédita na República. Mais uma estrela no currículo do PT.

Mas foi também um golpe que levanta “questões de gênero”.

É o Macho Alfa do petismo indo buscar de volta o poder que sempre julgou de sua propriedade, contrariado por vê-lo dissipado por uma criaturazinha fraca e submissa.

Lula não esconde que chega para arrumar a bagunça e mostrar àquela mulher como se faz: para reativar a economia, para unir a base do governo, para conter a Lava Jato etc.

De fato, da gerentona e da guerrilheira não restou quase nada. Dilma entregou tudo ao criador, inclusive a honra.

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Luiz Inácio, o Napoleão do PT, inaugurou seu consulado em 2016

“DILMIZAÇÃO”

Na América Latina, o exemplo histórico mais próximo é o da “bordaberrização” do Uruguai.

Em 1971, o fazendeiro Juan María Bordaberry elegeu-se pelo voto. Em 1973, em meio a uma grave crise econômica e política, deu um “autogolpe”. Entregou o poder aos militares, mas seguiu na presidência.

O regime era civil só na aparência. Tanto era verdade que Bordaberry foi deposto três anos depois. Os generais ainda imporiam outros dois bordaberrys ao país, e só em 1981 se assumiriam como ditadura militar sem disfarces.

A “dilmização” do regime petista tem outra natureza, mas o mesmo objetivo de perpetuação do poder às custas da vontade popular e das leis.

Ambos têm em comum também o bisonho esforço de salvar as aparências de normalidade.

Dilma entrega o governo a Lula para evitar o impeachment. E seu criador refugia-se no palácio para se esconder do juiz Sérgio Moro.

Com Dilma,  a crise era econômica e política; com Lula, será também uma crise institucional.

O consulado lulista já nasce emparedando o Supremo Tribunal Federal, exigindo dos ministros o compromisso de impunidade ao seu chefe.

Já nasce disposto a fazer o diabo para controlar o Congresso, o que significa levar às últimas consequências a desmoralização do Poder Legislativo pelos métodos que Lula conhece como ninguém.

Já nasce determinado a conduzir o Brasil à sua mais irresponsável aventura econômica, para criar uma efêmera bolha de popularidade capaz de manter o PT vivo até 2018.

Por fim, ao esbofetear os milhões de brasileiros pacíficos que foram às ruas no domingo, Lula e Dilma fazem uma aposta firme no conflito social e no medo.

Em lugar de tanques, dólares na cueca; em vez de tropas do Exército, os barrigudos da CUT e do MST.

O potencial de baderna institucional do 16 de março lulista só tem paralelo com o do 13 de dezembro da  junta militar de 1968, que fechou o Congresso e promulgou o AI-5.

Lula, como sempre, supera seus mestres. Ele ocupa sozinho todo o espaço de desestabilização que, naquele ano tenebroso, exigiu o concurso de três comandantes das Forças Armadas  – os “três patetas” imortalizados por Ulysses Guimarães.

Neste momento em que o manto imperial cai sobre os ombros de Luiz Inácio, é irresistível parafrasear a citação de Hegel por Marx, em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”: os fatos e personagens de grande importância na história do mundo petista ocorrem, por assim dizer, três vezes.

A primeira, como farsa; a segunda, como escárnio; a terceira, como acinte.

Para a maioria dos brasileiros, a tragédia vem por último.

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