Cultura e poder

    às: 15:21 , atualizado em 08 de setembro às: 15:21
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    É preciso ordenar as ideias para que possamos pensar, refletir e, com sorte, encontrar caminhos menos ruins do que este que estamos sendo obrigados a trilhar.

    Para que possamos cobrar o Estado é bem que se entenda a sua função e abrangência. Defendo que caiba ao Estado aquilo que só o poder público possa realizar, a saber: educação, segurança e saúde. Ainda assim. defendo a participação da iniciativa privada em todos os setores, inclusive estes, respeitando regras e a lei, claro.

    Assim, quando a Prefeitura de Guarulhos, por exemplo, torna-se o principal investidor na área de cultura, sendo responsável por cerca de 90% de toda a atividade cultural do município, há uma coisa muito errada.

    Em primeiro lugar, porque nenhuma das áreas básicas – repito: educação, saúde e segurança – está realmente funcionando a contento. Não há frascos para exames nos postos de saúde, ainda há escolas sem professores e em condições precárias, e pessoas são estupradas no Bosque Maia à luz do dia. Ou seja: nesses setores prioritários ainda há muito a fazer e a investir para que atendam minimamente as necessidades dos guarulhenses.

    Show, oficinas, cursos, workshops, exposições, instalações etc. são coisas ótimas, mas deveriam prosperar como qualquer outro negócio (pois é disso que se trata), por suas próprias pernas. Há financiamento para isso. Há uma lei de incentivo fiscal que permite às empresas privadas subsidiar atividades culturais. Há ingressos que podem ser vendidos. Há publicidade que pode ser vendida etc. Enfim, o entretenimento e a cultura têm várias fontes não públicas para se sustentar.

    Quando um curso de teatro, composto de algumas oficinas, chega a custar R$ 65 mil ao mês para os minguados cofres públicos, segundo o “Diário Oficial de Guarulhos”, não é por acaso que existam tantas ONGs “culturais” para cavar essa boquinha. E se não há concorrência para esse tipo de serviço, como medir se um grupo de teatro é mais eficiente do que outro? Então, como é sabido, são contratados os “amigos do rei”.

    Assim, cria-se o segundo problema: um monte de “artistas” se organiza para constituir uma empresa, um grupo, uma ONG só para atender prefeituras, que é o que não falta neste País. Competência, qualidade do trabalho, e coisas que tais tornam-se irrelevantes, uma vez que esses “artistas” não dependem dos clientes e dos pagantes.

    O Estado acaba entrando onde não deve, sempre de forma paternalista, e distribuindo privilégios.

    Honestamente, um ONG receber R$ 65 mil por mês por um curso de teatro é coisa de pai pra filho. Em vez de contribuir, como se alega, para a “construção de uma cultura local”, seja lá o que isso signifique, essa prática contribui, isto sim, para que mais um grupinho da “turma” arranque mais um pedaço do orçamentol, a pretexto de que está “fazendo arte”.

    E o mais grave é que não há prestação de conta do poder público sobre o tema. Quantas pessoas foram a tal peça? Quantos se beneficiaram de tal oficina? Qual o real custo por aluno de tal curso? Não sabemos, mas podemos ver semanalmente no “Diário Oficial” quantos são beneficiados pela benevolência da Prefeitura.

    Na leitura dos governos petistas, provavelmente “circo” dá mais voto do que saúde ou educação. Mas eles se esqueceram de perguntar se o cidadão quer que seu dinheiro seja gasto em aulas de xadrez e pintura de dedo, ou em remédios, médicos, professores e policiais.

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